Araucárias: Um circuito que encanta, mas também desafia | Revista Bicicleta

O CIRCUITO DAS ARAUCÁRIAS É CONSIDERADO O MAIS DESLUMBRANTE, E AO MESMO TEMPO O MAIS DESAFIADOR, DOS QUATRO CIRCUITOS DEMARCADOS EM SANTA CATARINA. CRIADO EM 2012, AINDA É POUCO EXPLORADO DEVIDO À SUA ALTIMETRIA ACUMULADA – POUCO MAIS DE 6 MIL METROS -, MAS A EXPERIENCIA COM A E-BIKE, PODE PROMETER TORNAR A SUA BELEZA ACESSÍVEL A QUALQUER CICLOTURISTA.

Texto baseado e revisado de 2019.

O Circuito das Araucárias é, ao lado dos tradicionais Vale Europeu e Costa Verde e Mar, e o recém-lançado Vale dos Encantos, um dos destinos cicloturísticos de Santa Catarina que conta com toda a infraestrutura e apoio de uma rota demarcada e monitorada por um consórcio que a administra. Isso significa que o cicloviajante dispõe de sinalização apropriada, pontos de checagem e carimbo que atestam a sua passagem e zelam pela sua segurança, estabelecimentos credenciados com kit de apoio ao ciclista para reparos da bicicleta, e toda uma cultura de respeito e acolhimento aos que pedalam.

Criado em 2012, o Araucárias é o mais rústico de todos e ainda gera certo receio do cicloturista de enfrentá-lo. A altimetria acumulada nos cinco dias sugeridos para percorrê-lo gira em torno dos 6 mil metros durante os 260 km do percurso. Ele tem início na cidade de São Bento do Sul (cujo aeroporto mais próximo é Joinville) e passa por Corupá (capital da banana), Campo Alegre (capital da ovelha), região de Campo do Quiriri (que permite a experiência numa pousada do projeto Acolhida na Colônia) e Rio Negrinho (centro moveleiro).

Além disso, por proporcionar uma completa imersão na natureza, atravessa regiões quase desabitadas, como áreas de reflorestamento, zonas de rios e cachoeiras, campos de araucárias, pastos de ovelhas, extensos bananais e estradas históricas. Com terreno que exige um bom condicionamento físico aliado a alguma experiência técnica, o Araucárias tem sido pouco explorado, mas tanta beleza e encantos da região merecem ser um destino certo no calendário de todo cicloturista.

E-bike, a grande aliada

O Araucárias não precisa ser temido por quem não se sente em condições físicas ou com experiência suficiente para encará-lo. É o que a Montes e Caminhos, operando em 2019 na região e ofereceu completo apoio ao circuito. A ideia em popularizar o circuito e suas possiblidades em varios estilos de pedal, resolveu com um grande parceiro apresentar uma solução a esse desafio. E através da possibilidade do uso da e-bike, a bicicleta de pedal assistido, já bastante utilizada na Europa, onde o cicloturismo alcança qualquer idade e nível de condicionamento físico. Aqui, no entanto, por inúmeros fatores, ela ainda é razoavelmente desconhecida: o preconceito existente entre os ciclistas mais competitivos, o alto custo das marcas estrangeiras no mercado, e a pouca oferta de empresas para o aluguel da e-bike.

“A e-bike é um produto novo para nosso mercado. É fantástica, apesar de ainda sofrer preconceito mais pelo desconhecimento, pois muitos acham que o ciclista não pedala. Porém, é uma bicicleta de pedal assistido com um motor movido a bateria que te auxilia principalmente na subida”, explica Juliano, nosso guia pela Montes e Caminhos.

Segundo Guia, o Araucárias é o circuito perfeito para o uso da e-bike por quem não se sente confiante para percorrê-lo devido ao grau de dificuldade. “Temos um dos circuitos mais bonitos do Brasil, de natureza exuberante, paisagens diferentes a cada dia, passando por muitas cachoeiras e estradas históricas como o Caminho dos Príncipes”, garante.

Turismólogo Maicon Mohr, idealizador da operadora Seledon dentro do Vale Europeu, que operou por algumas temporadas também no Araucárias há quatro anos e amigo e parceiro desde inicio da Montes e Caminhos, acredita que a e-bike tem futuro promissor no mercado de cicloturismo. “Cada vez mais recebo clientes com e-bike que se desfizeram de excelentes bicicletas após experimentarem o pedal assistido.” Maicon frisa importância… “empresas comecem a oferecer esse equipamento”. Segundo ele, a e-bike é perfeita para o ciclista que não se sente com preparo físico: “A e-bike vai ajudar e tornar o pedal divertido, permitindo ao cicloturista ultrapassar seus limites com tranquilidade. Isso valoriza e contribui com o mercado de cicloturismo”.

Objetivo foi divulgar em 2019 circuito e benefícios da e-bikes … “exemplo das operadoras Seledon e Rota Cicloturismo, que já utilizam bicicletas de pedal assistido no Vale Europeu”, explica Alessandra Mattos, que dá apoio e fotografa as cicloviagens na Montes e Caminhos. (A Revista Bicicleta publicou a reportagem A vez da inclusão: Vale Europeu de e-bike na edição 91 – março de 2019).

A experiência de quem adotou a e-bike

O casal Claudete e Osmar Menegaro, 63 e 66 anos, moradores de Curitiba, escolheram o Circuito das Araucárias para estrear em cicloviagens com a recém-comprada e-bike.  Cicloturistas experientes em rotas nacionais e internacionais, sempre com a MTB tradicional, testaram por curiosidade uma bicicleta de pedal assistido e se apaixonaram. “Treinamos em torno de 40 km todos os dias pela cidade. Compramos a e-bike pensando no cicloturismo, mas a utilizamos agora em nossos treinos, desligada. Como é mais pesada, nosso desempenho melhorou muito a ponto de não usarmos mais nossas bikes normais. Eventualmente, a ligamos numa subida”, relata Claudete.

A ciclista só vê vantagens. “A e-bike te ajuda quando você já está cansado e, em subidas bruscas, você economiza energia, usufruindo melhor do circuito o dia todo, curtindo o passeio”, diz. Além disso, Claudete afirma que a bateria tem a autonomia necessária para o cicloturismo, em torno de 80 km por dia se utilizada no modo econômico. “Nós faríamos o percurso sem a e-bike porque temos preparo, mas não vale mais a pena ficar sem ela depois que descobrimos os benefícios que ela nos proporciona”, assegura.  

Para Claudete, o Circuito das Araucárias pode ser considerado difícil, mas ela só viu pontos positivos: “Apesar da altimetria considerável, com muitas subidas e descidas, passando por áreas de reflorestamento cujo terreno é úmido e escorregadio, onde mesmo os mais experientes descem da bike, o traçado é bem feito e te permite apreciar a beleza das araucárias e das cidades bem cuidadas, com muito boa sinalização e hospedagem”, assegura.

Guiado ou autoguiado?

O Circuito das Araucárias foi planejado por um grupo de ciclistas que montou o Consórcio do Quiriri com o objetivo de permitir a autossuficiência do cicloturista durante todo o percurso. Uma cartilha fornece as informações necessárias para que se faça o circuito sem GPS, utilizando as tulipas de navegação, que são as placas indicativas. Porém, o site do Circuito disponibiliza os arquivos GPX para download. O circuito começa e termina em São Bento do Sul, mas pode ser iniciado em outro local ou percorrido em etapas distintas. A sugestão do trajeto leva em conta a facilidade de acomodação em hotéis.

Por ser uma completa imersão na natureza, o ciclista pode atravessar muitos quilômetros de forma solitária. Pensando na segurança, o consórcio adotou o sistema de mais de um ponto de checagem por dia, quando o cicloturista deve carimbar o passaporte e fornecer dados pessoais, como telefone e contato para emergência. O monitoramento do ciclista é feito 24 horas e permite que se saiba quando foi sua última parada e a previsão de chegada no destino seguinte. Em caso de necessidade, o circuito providencia o resgate.

Guia sugere aos ciclistas independentes que estejam sempre bem abastecidos com água, comida e dinheiro trocado, pois nem todos os estabelecimentos trabalham com cartão de crédito. “Pode demorar mais de uma hora sem encontrar uma alma viva no caminho. Por isso, recomendamos que o ciclista passe em cada ponto de parada não só para as métricas, mas para sua segurança. Se o ciclista não chegou dentro do esperado, a organização fica alerta. Já houve caso de resgate com água, conserto de pneu furado, alimento e agasalho. É uma preocupação do circuito. Por isso é importante estudar a cartilha, a planilha de navegação e ler as orientações para compreender as placas indicativas, ou tulipas de navegação, e não se perder”, alerta Guia.

Ele recomenda ainda levar roupas para frio e calor, pois o tempo é instável na região, além de repelente, protetor solar de alta proteção mesmo em dias nublados, capa de chuva e reparo para bike. Em caso de avaria, a organização do circuito disponibiliza alguns pontos de apoio ao ciclista.

A importância da operadora

A Rota Cicloturismo foi a primeira a operar o Circuito das Araucárias e hoje realiza entre duas e três viagens ao ano com grupos de no mínimo oito ciclistas. Para o proprietário Celso Pacheco, o circuito exige mais preparo do ciclista: “Quem gosta do Araucárias é quem procura maior desafio. É um passeio tão ou mais bonito que o Vale Europeu e combina ainda a parte histórica, pois passa pelo Caminho dos Príncipes (o nome tem origem num episódio histórico ocorrido em 1853, quando as terras do local onde se situa hoje a cidade de Joinville foram incluídas no dote de casamento do príncipe de Joinville com a princesa Francisca Carolina, irmã de D. Pedro II). O carro de apoio é quase que essencial  pela dificuldade do terreno e de alojamento entre as paradas”, explica Pacheco. 

Maicon Mohr, da Seledon Turismo, concorda que as características do circuito tornam a utilização do apoio quase que fundamental. “Respeito o perfil do cicloturista, pois há quem goste de fazer a viagem de forma autoguiada, quer vencer o desafio completamente sozinho. Mas quem se propuser a fazer o circuito dessa forma vai encontrar muito mais dificuldades que em outros roteiros, como o Vale Europeu, que é a porta de entrada do cicloturismo em Santa Catarina. Se  houver um acidente com o ciclista ou com a bicicleta, é preciso estar preparado para resolver. É comum passar por muitos quilômetros sem contato com ninguém”, enfatiza.

Agda Xavier Carreira, 43 anos, servidora pública em Brasília, fez o percurso em grupo e  considerou o apoio fundamental para sua condição de iniciante. “Achei o Araucárias mais difícil que o Vale Europeu, e o apoio tornou tudo menos sofrido. Imagina carregar alforjes em subidas longas ou dias de chuva, por exemplo. Ou passar mal, levar uma queda. Considero o suporte do carro de apoio e dos guias fundamental no Araucárias”, disse.

Já Ana Maria Manna Pádua, 55 anos, educadora física em Prata (MG), buscou um grupo para a o Circuito das Araucárias porque gosta de aliar o cicloturismo a novas amizades. Ela e o marido também ressaltaram a dificuldade do percurso, mas garantem que com apoio é plenamente possível de ser realizado.

A REPÓRTER CICLOVIAJOU A CONVITE DA MONTES E CAMINHOS E PEDALOU A BICICLETA SCOTT SPARK ERIDE 910, QUE FOI GENTILMENTE OFERECIDA PELA FABRICANTE E PELA SUA REPRESENTANTE NA CIDADE DE JARAGUÁ DO SUL, A PROCICLO BIKE SHOP. 

Sobre a minha experiência no Circuito das Araucárias, posso afirmar que foi uma das cicloviagens mais lindas e imersivas que já fiz. Foi minha quarta em Santa Catarina e, mais do que o Vale Europeu, que percorri este ano, o Araucárias me proporcionou um contato com a natureza em estado puro, com o que há de mais genuíno e intocado na região. Já sobre o apoio da Montes e Caminhos, posso atestar que foi um dos mais competentes, seguros e calorosos que já tive. A equipe permanece com o ciclista por toda a viagem, o que te leva a conhecer locais escondidos, histórias pitorescas e moradores locais, principalmente agricultores. Recomendo o Circuito das Araucárias não só para quem quer se superar numa cicloviagem, mas para os que gostam de se aventurar e desbravar um dos locais mais bonitos do Brasil.   

Ampliando horizontes com a e-bike

A altimetria do Circuito das Araucárias pode intimidar os ciclistas menos experientes ou condicionados. Foi com a proposta de desmistificar o uso da e-bike em um dos mais lindos e intocados percursos do Brasil que pedalei a Spark eRIDE 910, com seu sistema de pedalada assistida.

O arranjo do conjunto de transmissão e bateria toma por base os componentes da linha STEPS da Shimano. Assim, o motor e o quadro estão perfeitamente integrados, não apenas sob a perspectiva de projeto, mas também oferecendo uma melhor distribuição no peso na bike. A Spark eRIDE é uma e-bike extremamente eficiente e fácil de pedalar.

A autonomia máxima é de 100 km no modo Eco, 75 km no modo Trail e 50 km no modo Boost. A velocidade máxima em potência assistida chega a 25 km/h. A capacidade da bateria é de 500 w/h. O curso das suspensões é 130 mm dianteira e 120 mm traseira.

A Spark eRIDE me permitiu concluir o Circuito das Araucárias com total segurança e tempo suficiente para descanso, fotos e contemplação da natureza, sem necessidade de empurrar a bicicleta em nenhuma subida. Sem dúvida, uma excelente opção de inclusão para qualquer ciclista se aventurar num dos passeios menos explorados, porém de maior contato com a natureza de Santa Catarina.

Nota: Matéria baseada em artigo para revista Bicicleta 2019, revisada pela Montes e Caminhos em 2020. Direitos das fotos Alessandra Branco.